espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

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Abr 09

Celebra-se hoje a Páscoa. Para os fiéis cristãos, é o tempo mais importante de todos. Supera, de longe o Natal. Nascer, todos nascemos, quanto a ressuscitar, parece que o caso fia mais fininho (se bem que para ressuscitar seria preciso termos nascido, mas isto será tautológico e fora deste âmbito).

Crê a Igreja, una, santa, católica (e portanto universal) e apostólica (e portanto evangelizadora) que a Vigília Pascal é o expoente máximo da fé. Ocorre no sábado seguinte à sexta-feira Santa e anuncia, em primeiríssima mão, a ressurreição, constatada apenas na manhã seguinte pelas mulheres que se dirigem ao sepulcro. E que notícia, e que anúncio!! Para os fiéis, mais cegos ou mais pensantes, esta é, em verdade, a pedra central de toda a cristandade: Cristo vive, Cristo derrota a morte (diz-se até que foi por nós) e todos fazemos parte do Corpo de Cristo.

Muito bem. É a fé, e a fé pode debater-se, argumentar-se, pode julgar-se até, mas não se pode querer ter ou querer não ter: tem-se. Não é apenas racional, direi até que o essencial da fé é vivido e manifesto, não apenas teorizado. Ora bem, mas isto é muito, muito aborrecido. Então temos uma das maiores igrejas da cidade com pouquíssima gente às 22h, quando se inicia a Vigília! Mas porquê, penso eu, se hoje em dia até volta a estar na moda? Depois entendi, e passo a explicar a receita do paroco para o sucesso da missão cada vez mais notória da igreja: afastar as pessoas! Sei de um tal décimo sexto que iria aprovar:

Primeiro, inundem a assembleia com um incenso forte. Poderoso, daquele que se infiltra nos pulmões e que desencadeia uma onda de tosse atroz.

Segundo, ponham o coro a cantar tudo, tudo, em latim. Porque se ainda há quem saiba o que quer dizer kyrie eleison e ora pro nobis, o resto é chinês. Ou latim, neste caso.

Terceiro, dêem ao coro um microfone em 734ª mão, de modo a não se entender mesmo nada.

Quarto, as nove leituras devem ser lidas com um ar de frete. Os salmos gritados, vociferados e resmungados. O evangelho lido da forma mais desinteressante possível.

Quinto, não esquecer, de vez em quando, o próprio celebrante deve regressar ao latim.

Sexto, não avisar quantos são os catecúmenos nem quais os sacramentos que irão receber: assim podem surpreender a assembleia com uma quantidade considerável de padrinhos e flashes fotográficos.

Sétimo, as ladainhas também devem ser em latim, e sempre longas... nunca é demais.

Com isto entretêm o povo durante duas horas e ainda nem entraram na parte da eucaristia propriamente dita. Se tudo correr bem, já existem poucos sobreviventes...

Eu, vim embora. Ele vive, mas não ali, quase de certeza...

publicado por Vita C às 16:12

2 comentários:
Gostei deste post.

Sou católico, mas há tanta coisa que me irrita! Talvez julgue demais e às vezes nem seja imparcial ou talvez até seja ignorância da minha parte, mas o que tenho vindo a assistir é a materialização de uma coisa que não se materializa, o divino!

Sempre me questionei determinados dogmas e determinadas tradições e apenas me ocorre que o mais importante não está presente nas talhas douradas dos altares nem na quantidade de terços que se rezam por dia, é algo mais profundo, bem mais profundo!

E talvez por ser mais difícil do que parece perceber o espiritual (é bem mais fácil ser ateu) e pelos exemplos devotíssimos dos cristãos de meia tigela, se vandalize tantas vezes uma imagem que deveria ser sagrada.

Mas quem sou eu para julgar?

Bjinhs :)
Bisc8 a 16 de Abril de 2009 às 15:18

Clap clap.
Concordo com quase tudo o que escreveste. Por vezes burocratiza-se e regra-se demasiado algo que, sendo intangível, não deve ser sujeito à finitude do homem como parâmetro.
Não obstante, acredito que na união dos fiéis (união, assembleia, comunhão, como lhe queiras chamar) reside a maior força da igreja. O que não é sinónimo de dizer que é a única, ou sequer a maior, fonte de fé. Essa, que é o que de verdade dá significado à relação que temos (ou não, é tão mais fácil ser ateu...) é tão pessoal que não pode nem se consegue, ser partilhada.

Foi precisamente nesse ponto que tentei insistir...

:)
Vita C a 16 de Abril de 2009 às 19:27

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