espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

08
Ago 12

Fiz a infantil e a primária no Sport Algés e Dafundo. Quer isto dizer que fiz parte de um clube que prezava (e preza) o desporto e punha os alunos na piscina a partir da primeira classe (eu não, que fugia da água a sete pés!), tendo formado e treinado atletas olímpicos em diversas modalidades. Por isso não será de estranhar que o meu irmão passasse anos a fio no karate (depois de uma breve experiência no judo) a tal ponto que chegou, imbuído do espírito do Mr. Miyagi, a apanhar moscas com pauzinhos chineses.   

Eu, claro, nunca tive capacidade para essas brincadeiras, e fiquei fã da ginástica rítmica, passando lá quase todas as tardes da minha infância e primeira adolescência. Na verdade, eu era boa, mesmo boa. Fui admitida a todos os estágios intermodalidades sem grande esforço nos testes. Tinha, obviamente, uma figura pequenita, mas esguia e elástica. Era particularmente dotada para a parte corporal da coisa, mas o arco, a fita e as maças não se comparavam com o prazer de andar por ali a espalhar magia com a bola. Tinha um verdadeiro prazer naquilo, muito puro e ingénuo.
Mas, ei, era eu, como todo o mau feitio em potencial, e, portanto, quando a minha treinadora começou com coisas do tipo "cuidado com a alimentação" e "não podem pesar mais de", comecei a ter asco das aulas. Em abono da verdade, nunca gostei de comer, mas gostava ainda menos de proibições. Claro que me diziam que tinha de fazer sacrifícios, e eu até entendia e tal, mas pesando prós e contras, escolhi sair. Chegaram a telefonar à minha mãe para me fazer mudar de ideias, mas ela, como eu, foi peremptória. Eu era uma criança e não ia para a ginástica obrigada.

Mas claro, eu precisava do desporto. Do exercício, da adrenalina. Então, com uma colega da escola, inscrevi-me em aulas de ténis. Não era dotada da mínima propensão para o dito e, ao fim de uns meses, tornou-se evidente que não valia a pena continuar com o suplício do instrutor e da bolsa da minha mãe. A minha colega lá ficou, com uma parceira de jogo muito melhor e eu segui a minha vida.

Então fez-se luz no meu espírito. Filha de peixe sabe nadar. O meu pai foi campeão nacional de hóquei em patins e eu fui ao Belenenses inscrever-me na patinagem artística. Aquilo era giro, giro. Não esperavam grande coisa de mim, porque com a minha idade ninguém vai começar a praticar patinagem. Bom, aos 14 anos, eu era velha. Creio que olhavam para mim com uma certa pena, mas lá me alugavam uns patins e deixavam-me entrar no ringue, ganhar equilíbrio e brincar um pedaço. Não faço ideia, honestamente, de como alguma vez tive a força que tinha nas pernas naquela altura, porque os exercícios que se fazem não são brincadeira e, ao contrário do que a TV mostra, não são fáceis e exigem esforço. Pensava eu que tinha encontrado sítio e modalidade para exercitar-me. Não podia estar mais enganada! Dois anos depois, ainda com patins alugados, estou a preparar um salto (não faço ideia do nome, a sério) e quando estou no ar tenho aquela impressão "o-oh, isto não vai correr bem". Não correu. A minha perna direita fez uma rotação de 180º para dentro e vi, pela primeira vez, a parte de trás do meu joelho ao vivo. No calor da situação consegui, com um sangue frio absolutamente absurdo explicado apenas pela inconsciência da situação, pôr a perna no sítio. Ninguém me disse então, mas eu soube, os meus dias sobre rodas tinham chegado ao fim. Ainda tentei continuar mais umas semanas, mas as dores eram mais fortes. E eu nunca fui boa o suficiente a patinar para me submeter a cirurgia por causa disso. Ocasionalmente, ainda me salta o tendão do sítio (mas isso são outras histórias). Nesse dia, depois da consulta no ortopedista, fechei a porta ao desporto.

Consequência: passei a ser um tronco com braços (descrição nada misericordiosa do meu irmão, devidamente comprovada com fotos da época). Gorda, mas gorda. Safavam-se as canelas. De facto, ao fim de 10 anos de exercício no mínimo 3x por semana (a ginástica era mais, claro), a paragem tinha de ter alguns efeitos. Mas bom, os tempos eram outros e eu não tive, felizmente, consciência da lontra em que me tornara. Nesta altura já fumava, o que impediu males maiores em termos da engorda (outros males se preparavam, como sabem pela história recente). Apesar disso, era um ser altamente sociável, o que contrasta com o bicho do mato que sou actualmente, mas, de facto, a adolescência é um tempo santo e pleno do qual só temos saudade depois de a vivermos. Então, eu era um ser sociável e gordinho. Saía, namoriscava, estudava, enfim, uma vida normal, que é como quem diz, com aquelas coisas que julgamos que não acontecem a mais ninguém, mas acontecem.

Aos 17 anos comecei a namorar com um rapaz que, pela primeira vez, me levou a ser negligente nos estudos. Mesmo assim, sem preparação e afinco, terminei os exames do secundário com 18 valores. E gordinha, claro. Entrei para o único curso que quis seguir, na única faculdade a que me candidatei.

E no fim do primeiro ano, por motivos que agora não importam, eu tinha um namorado a menos e 4 cadeiras a mais para fazer em Setembro. Quatro trabalhos de grupo para fazer sozinha. Escondi tudo da minha mãe, porque acho que não suportaria a desilusão que seria para ela se eu chumbasse em algumas dessas (ou outras) cadeiras. Passei o verão de 1999 a estudar para exames e a fazer trabalhos. Não tive férias nesse ano. E o dia em que entreguei o último trabalho foi um alívio. Mas foi o início do período negro. Estive um mês sem me levantar. Não dormia. Acordava para chorar. Finalmente a tristeza apoderara-se de mim, passada a concentração necessária para o trabalho, agora era presa fácil de momentos depressivos. Fui ao médico, que, prudentemente, me receitou Valdispert. Tomava 12 por dia, e não dormia. Deixei de tomar, claro, mas a falta de sono ficou até hoje, embora bem mais moderada. Ninguém estranhou, porque o meu período de maior produtividade para estudar sempre foi à noite. Deixei de comer. De verdade. Perdi bem mais de 15 kg. Era incapaz de comer e, quando o fazia, arranjava logo forma de compensar. Sim, isso mesmo, lançava a mão à garganta e tungas. Não entrei em histerias de exercício físico, mas olhava-me ao espelho e via-me, lá está, gorda. Do alto do meu 1.59m e com 42 kg eu via-me gorda. Então não comia. 

Recomeçaram as aulas. Eu era movida a tabaco e coca-cola. Mas verdadeiramente viciada (como bem sabe a Sara, que uma vez teve a infeliz ideia de me esconder a coca-cola). Um dia, um dos meus amigos de então, não havendo lugares para todos, foi buscar uma cadeira de criança. Eu, sem saber que a cadeira era de criança, cheguei e sentei-me. Portanto, para não haver dúvidas, eu sentei o meu real traseiro numa pequeníssima cadeira de criança. E aí, lá está, quando confrontada com a realidade da cadeira ser de criança, deu-se-me a epifania. E voltei a comer decentemente. E deitei fora a balança lá de casa. Para nunca mais ter uma.

Nascia então o bicho do mato que sou hoje. A partir desse dia, pus-me à frente de tudo e de quase todos (nunca à frente da minha família). Claro que isso me trouxe alguns (muitos) dissabores, mas tornou-me uma pessoa extremamente forte e resiliente. E com um grande respeito por quem trabalha com pessoas que sofrem de perturbações do comportamento alimentar, decidi que nunca iria intervir nesta área. Porque, lá está, no fundo da minha cabeça, existe um pequeno monstro que concorda com a perturbação, é um monstro mau que não alimento mas que respeito e temo. E que, se não estou atenta o suficiente para lhe dar uma paulada quando ele vem à superfície, se torna a instalar.

Entretanto, como sabem, por motivos de saúde, voltei a engordar e não foi pouco. Disseram-me para fazer dieta. Claro, coitados, não sabem, mas a única coisa a que não cedo, como se depreende do atrás exposto, é a dietas. Costumo dizer que é por achar que não comer carne é dieta suficiente. Mas a verdade é esta: não tenho a certeza de quem controlaria a dieta, se eu, se o monstro mau que anda sempre à espreita. Então, e porque a imagem que o espelho me devolve não me agrada, faço-me à estrada. Corro. Desde o dia 06 de Maio que corro. Sei, porque era dia da Mãe. Portanto, corro ha 3 meses. Os resultados não estão à vista, claro. Em Setembro passo da hidroginástica para a natação (eu, a mesma que fugia da água a sete pés). Porque tendo deixado de fumar, e tendo apanhado um dos sustos da minha vida, é o mínimo que me devo para ser mais saudável. E, em verdade vos digo, não há muita coisa melhor do que a sensação de relaxamento no duche após a corrida. E porque cada dia que corro, ou nado, estou a fazer algo positivo por mim, continuando a comer.

E assim nasceu, para companhia do monstro, a Sport Vita.

 

publicado por Vita C às 10:17

3 comentários:
Podes ter-te tornado num bicho do mato, mas a mim parece-me mais uma capa para esconder aquela que me parece ser uma pessoa muito especial, com um interior bonito, frágil como tantas outras pessoas mas que escolhe ser dura para não voltar a cair em tentação! Para mim, e do pouco que te conheço virtualmente, és uma lutadora! Alguém que escolhe lutar todos os dias contra os seus próprios monstros! E os vai vencendo! Dia após dia! Um de cada vez!

Beijios minha linda ruiva!

São
soumaiseu a 8 de Agosto de 2012 às 12:53

;)

Senti necessidade de escrever este texto sobretudo para, primeiro, escrever sobre isto pela primeira vez e, segundo, porque às vezes pode parecer que fico um pouco obcecada com o correr e afins. É pura e simplesmente uma questão de saúde, movida à vontade de me sentir bem física e mentalmente, e isso passa também por gostar do meu corpo.

Obrigada!
Vita C a 10 de Agosto de 2012 às 11:43

Claro que sim! O que nos move deveria ser sempre aquilo que queremos e que nos faz sentir bem! Já tinha percebido que tinhas uma relutância muito "especial" em fazer dieta, da mesma maneira que já te tinha percebido uma determinação muito marcada para o correr... tinha de haver uma passado desportivo por detrás disso! Fazes muito bem em apostar no exercicio fisico! Se eu não fosse tão preguiçosa fazia o mesmo! :-P

Bjocas!
soumaiseu a 10 de Agosto de 2012 às 19:24

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