espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

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Mar 12

Existe portanto todo o direito da minha parte de estar completamente redonda e com permanente fome e gula, ainda mais distraída que o costume e com raivinha e inveja da Lisbeth Salander (ou de qualquer outra magrinha sobre quem tenha visto um filme nas últimas 24 horas). Além disto tudo (que não é pouco), amanhã regresso ao trabalho após um mês.
E enquanto estava para aqui a pensar em postas de pescada para arrotar (see, it all comes down to food!) e destilar o meu mau humor, lembrei-me que ontem o programa da Voz do Cidadão foi sobre touradas, tendo aparecido a Gabriela Canavilhas (não lhe chegava fazer porcaria com a PL118, ainda me aparece à frente com as touradas). Ainda em modo preguiça aguda, veio-me à memória um dos melhores textos que já li sobre o assunto, escrito pela Sara, que não só tem um gosto musical apurado, como escreve estas coisas que ficam e aqui se reproduzem, porque traduzem precisamente o que eu escreveria se tivesse o jeito para letras que ela tem:

Bullshit!

Parece que a Catalunha teve um rasgo de inteligência no país capital da tourada e decidiu abolir este "espectáculo" (?) deprimente. As lutas de cães são ilegais, se eu espetar um ferro num cão estou a ir contra a lei e se o fizer num humano arrisco-me a ficar uns bons anos na prisão. Por cá ainda se continua a discutir se as touradas têm razão de existir e há mesmo quem seja contra esta decisão da Catalunha.

Se este primeiro parágrafo não é claro o suficiente, eu explico-me: considero qualquer pessoa que seja a favor de um espectáculo que consiste em espetar ferros num animal irracional um verdadeiro asno, com merda de touro no lugar de miolos.


Um dos principais argumentos que estes idiotas usam para defender a tortura é que
"é tradição". Tal como é tradição a mutilação genital nas guineenses, ou como era tradição encher o Coliseu de Roma de gente e aplaudir a sua morte cruel. Se tivéssemos mantido todas as tradições desde o início dos tempos, se calhar eu hoje não podia estar aqui a escrever num blogue por ser mulher e pelos meus pais serem da plebe. Claro que um defensor de touradas deveria achar isto muito bem, pois os defensores deste tipo de tradições também costumam ser amigos de tradições familiares que defendem que a mulher só serve para procriar e coser meias. Este é mais um ponto a favor da minha argumentação: sim, vocês são mesmo idiotas.

Outra argumentação disfarçada de preocupação é a de que o fim das touradas levará à extinção dos touros. Claro que sim, até porque todos os animais têm valor comercial para o ser humano, só por isso é que existem! E a carne de touro nem sequer é apreciada por aí. Não! Se os touros não servem para ser mutilados numa arena, então vão ser condenados à extinção, os coitados. É bonito ver a preocupação com a extinção do touro vinda de alguém que bate palmas quando este se esvai em sangue enquanto o povo bate palmas e come pipocas. É gente sensível, esta que defende as touradas.


Outro argumento muito bom é o não argumento:
"esses hipócritas que defendem o fim das touradas se calhar à noite jantam um belo bifinho! Ainda se lutassem contra a vida triste que levam os frangos enjaulados!".

Defender o fim de um espectáculo brutal, que explora a dor de um animal para fins de entretenimento (como se as pessoas já não tivessem entretenimento suficiente) é comparável ao comer carne. Bravo. Mas não se pode esperar melhor argumentação de alguém que ri ao ver um animal irracional a defrontar um animal racional montado num cavalo e armado com ferros que espetam. É possível comer carne sem que estes animais tenham vivido uma vida miserável, confinados a jaulas de 1 metro quadrado, que têm de partilhar com mais 300 frangos. Há animais criados ao ar livre. E há quem não coma carne. E - pasme-se! - há quem seja contra touradas e contra os maus tratos infligidos a outros animais! Eu sei, eu sei, é estranho pensar na coisa sob estes moldes. É de facto impressionante imaginar activistas anti-touradas que defendam o fim dos maus tratos a outros animais! Vá-se lá entender como é possível.


E, claro, enquanto existirem mais males no mundo, não se pode lutar contra um mal do mundo. Afinal, existem outros males no mundo que deviam acabar! Vão mas é reivindicar pelo fim desses males do mundo e deixem este mal do mundo sossegado.
"Há tantos animais abandonados e vocês preocupados com as touradas!". Indecente. De facto, é indecente.

Ah! Outro argumento giríssimo:
"Proibir as touradas é um acto intolerante". Pois é, pois é. Isto de ir contra a vontade de cada um é uma bosta. É isso e proibir o trabalho infantil, ou as violações. Há que ter respeito pela vontade de cada um! Se eu quero afinfar numa mulher mas ela não quer, deve ganhar quem tem mais força! Era o que faltava a lei vir meter o bedelho no livre-arbítrio.

De certeza que me estou a esquecer de mais argumentos usados pelos aficionados. Queiram desculpar, caros asnos. Sintam-se à vontade para vomitar mais argumentação aqui neste blogue. Se ofendi susceptibilidades de adeptos de touradas, saibam que a vossa estupidez também me ofende todos os dias.

publicado por Vita C às 15:27

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