espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

21
Jan 14

 

O G*. foi o meu primeiro caso enquanto terapeuta. Aliás, o N. foi o meu primeiro caso enquanto estagiária. O G. é um tipo bem sucedido, pouco mais velho que eu, com um talento musical assombroso (e precocemente desperdiçado) e uma sensibilidade interpessoal impressionante.

O G., dizia eu, foi o meu primeiro caso. Filho de pai e mãe, ambos morreram de overdose quando ele era miúdo e o G. ficou então ao cuidado dos avós e da tia. Cresceu, fez amigos, amigas, entrou para a faculdade, namorou com uma rapariga, e quando entra em processo terapêutico G. define-se como bissexual. Ora já nessa altura se sabia que a homossexualidade e a bissexualidade não são nem uma doença nem uma opção (eu não escolho gostar de homens, acontece assim comigo e pronto, o mesmo se passando convosco). O G. estava convencido de que estava completamente resolvido na sua sexualidade e eu, enquanto terapeuta, convencida estava que, "se ele está bem, eu também estou bem". Nas nossas sessões abordámos temas bastante transversais a qualquer sexualidade, as expectativas nas relações, as nossas formas de estar, pensar e agir, etc., etc., e tal.

Como cliente JAVIS** que era (aparentemente), o G. foi quase minha cobaia. Recordo perfeitamente a sensação de orgulho que me invadiu da primeira que chorou numa sessão nossa. Sim, os estagiários têm uma noção muito pérfida sobre algumas ocorrências no processo terapêutico. E um dia, chega e diz qualquer coisa como "Ana, estive a pensar e, para ser verdadeiro comigo, eu sempre soube que sou homossexual, mas nunca consegui lidar muito bem com o que os outros iriam pensar". Aqui os outros eram sobretudo a família que tinha sobrevivido ao flagelo de ver um miúdo sobreviver à morte dos pais pela droga para se ir meter no país dos paneleiros.

O G. sobreviveu a tudo isto, contou à família, à namorada, continuou a estudar (é um dos muito bons naquilo que faz, emigrou, regressou e agora emigrou novamente), e é um homem extremamente bem sucedido actualmente, quer no campo profissional quer nos domínios familiares e afectivo. Tem uma relação estável, sólida e cheia de significado. Se algum dia me perguntarem se o G. daria um bom pai, eu não teria dúvidas. Porque sei que ele seria muito melhor pai ou mãe do que alguns que vou encontrando ao longo do caminho. Se algum dia a co-adopção lhes surgir no horizonte, ficarei muito feliz.

Porque este referendo e esta urticária serve apenas para apascentar os nossos preconceitos. Nada mais.

 

*inicial fictícia de pessoa bem real.
** jovem, atraente, verbal, inteligente e (bem) sucedido

 

publicado por Vita C às 18:35

16
Jan 14

Sou a pessoa que chega a casa exausta, tira as lentes de contacto, e como vai encher varios estojos com liquido suplente, esquece que de tirou as lentes e vai de espremer os olhos para as tirar. Sem sucesso, claro! Entretanto, na duvida, experimento colocar os oculos e, voila!

publicado por Vita C às 21:07
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12
Jan 14

Sou frontalmente contra o aborto. Não há cá paninhos quentes de chamar a coisa de interrupção voluntária da gravidez, é um aborto e ponto final. Creio que apostar na desresponsabilização do aborto nos induz a uma generalização da irresponsabilidade. Porque efectivamente, somos donas do nosso corpo não apenas para abortar, mas também para termos dois dedinhos de testa sobre quando abrir e quando fechar as pernas, sobre tomar um anti-concepcional, etc.. Mas de facto, não nos compete ser puristas sobre levar a cabo uma gravidez em que exista risco de vida da mãe ou do bebé, ou que resulte de uma violação. Nestes casos consigo ponderar de forma diferente.

Só que, mesmo assim, prefiro pactuar passivamente com uma mulher irresponsável do que ser pactuar com a existência de uma criança indesejada e que não irá ser amada e será vista como um fardo e não como uma benção. Portanto, entre um mal e o outro, aqui sim, dever-se-á levar em conta o supremo bem da criança, essa figura jurídica e de estilo que a maior parte das vezes só se ouve quando nos convém.

Isto a propósito de (mais) um post da Rititi, com o qual não concordo na integra (até porque lá está, eu sou católica e tenho dois dedos de testa para reflectir, inflama-me a sobregeneralização estereotipada), mas a quem esta humilde escrevinhadora reconhece capacidade de distinguir o essencial do acessório.

 

publicado por Vita C às 14:40
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11
Jan 14

... seria nos enfermeiros da Saúde 24. Já diversas vezes recorri a este serviço e sempre fui devidamente encaminhada.

Esta semana comecei por ter dores num ouvido. Aborrecido, impeditivo de fazer algumas coisas, mas não o suficiente para ir alapar às urgências. Liguei para a Saúde 24 e encaminharam-me para o centro de saúde. Mas, ah, que pena, hoje já não há consultas de reforço. Liguei novamente no dia seguinte para a Saúde 24, porque como não tenho médico de família, dificilmente tenho qualquer consulta se não for encaminhada por outra via. E se a linha da Saúde 24 encaminhar, o centro é obrigado a encaixar-me numa qualquer consulta. Liguei, portanto, às oito e meia da manhã, e logo de seguida liguei para o centro de saúde. Ah, venha já que as consultas de reforço começam daqui a pouco.

Lá fui. A pensar na minha sorte de, finalmente, conseguir contornar a burrocracia do centro de saúde desta zona. D. Vita C, não podemos marcar, que a médica ainda não chegou. Eram nove da matina, e eu resolvi esperar, afinal, ao telefone tinham dado a indicaçao para ir o mais rapidamente possível.

Às onze e meia pergunto o que raio se passa. Já tinham passado mais sessenta senhas desde que eu tinha sido atendida. Ah, D. Vita C, mas porque é que veio tão cedo, a médica tem de autorizar a consulta. A médica tem o quê? De autorizar? Devem estar a gozar, para isso é que a Saúde 24 vos enviou o fax, e por que raio me mandaram estar aqui há duas horas? D. Vita C, mas ligou para cá? (eu aqui já bufava e só não tive uma síncope cardíaca porque o ouvido me latejava para fora da cara naquilo a que se veio confirmar ser uma inflamação monstra)

Como sempre, como já foi no caso da minha vacina para a gripe (outra história comicíssima), foi o segurança do centro de saúde que resolveu. Sim, o segurança, o tipo que leva as velhotas para o primeiro andar ao colo, porque o novo centro de saúde só tem a primeira pedra lançada (ainda no tempo do Isaltino, antes, muito antes de ter sido preso). É o segurança que resolve tudo.

O segurança e, claro está, o fax da Saúde 24.

 

 

808 24 24 24

(anotem este número)

publicado por Vita C às 20:49
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08
Jan 14

Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional ja!

A proposito, sabem onde estão os restos mortais do Marquês de Pombal, alias Conde de Oeiras, Sebastião Jose de Carvalho e Melo.. não estão onde pretendem pôr os do Eusebio, antes se encontram numa pequena igreja na Ajuda, na zona da Memoria, um pouco acima de Belem. So para se ter termo de comparação e, mais uma vez, sem qualquer demerito para o Eusebio... Mas a Cesar o que e de Cesar.

publicado por Vita C às 19:17
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06
Jan 14

Eu sou a pessoa que, de manhã, troco a lente de contacto esquerda pela lente de contacto direita e me apercebo apenas depois de ter saido de casa. Sou a pessoa que a picar cebola na picadora acabo por entornar tudo no chão por ter os olhos a chorar de tal maneira que não vejo onde ponho as mãos. Sou a pessoa que vê os horarios do autocarro e se esquece que entretanto nem todos os dias são uteis e que ao sabado e domingo existem autocarros que não circulam. Sou a pessoa que nunca consigo enfiar os fones do call-center na caixa de origem e que nunca consegui voltar a embalar os artigos de exposição nas caixas originais quando trabalhava numa loja de informatica. Entre outras coisas.

Sou uma trôpega. Nada sexy, nada Jessica Rabbit, e talvez seja precisamente por isso que nunca senti a necessidade de me fazer mais jeitosa do que sou.

Sou hilariante por mim mesma... e rio-me de mim mais do que qualquer outra pessoa.

publicado por Vita C às 19:04
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05
Jan 14

Ok. Eusebio era uma lenda internacional, levou o nome desta patria cada vez menos amada ate aos confins do mundo, etc e etc e tal. Respeito isso, como respeito que Amalia foi quem nos internacionalizou o fado e permitiu que houvesse Marizas e Camanes e afins. E este pais muito deve a quem nos consegue manter unidos numa qualquer identificação colectiva.

Tudo muito bem. O que azucrina basicamente foi o que a memoria me permitiu comparar. O pantera negra foi um jogador portentoso e continuou a ser um elemento motivador, quer do Benfica, quer da Selecção Nacional (eu estava no estadio quando o Eusebio falou com o Ricardo e este defendeu o famoso penalty contra a Inglaterra, com as mãos nuas). E depois o resto foi o mito que os portugueses criaram e alimentaram.Jose Saramago ganhou um Nobel. Foi o primeiro português a fazê-lo sozinho. Egas Moniz partilhou o premio e, se perguntarem, 99% dos portugueses responde que o premio se deveu a lobotomia, quando na verdade se tratou de uma leucotomia. E na morte de Saramago não vi nada desta comoção. E por comparação, isto faz-me especie... mas pronto.

publicado por Vita C às 22:29
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