espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

04
Abr 10

 

 

 

Sou, assumidamente, católica. Cristã, antes de tudo, e católica. Para quem lê este blog há algum tempo, já não é novidade. Era só estar atento. Não o sou por tradição familiar nem por imposição social. Aliás, este chamado dom da fé teve muito de racional na altura da grande escolha.

Em jeito de auto-revelação, digo-vos que a minha mãe é divorciada do pai do meu irmão e que nunca foi casada com o meu pai. Estas circunstâncias tornam-me, por definição, uma potencial não católica. Se vos contar então que no primeiro ano de catequese me chumbaram porque, e cito, era demasiado nova (eu e o meu irmão frequentávamos o mesmo volume e temos uma diferença de quatro anos), calculam, e bem, que cedo ganhei uma certa aversão a regras e tradições eclesiásticas.

Tinha doze anos quando voltei a entrar numa igreja. Onde fui bem recebida, acolhida, e onde me desafiaram todas as dúvidas, queixas e revoltas. Entrei, para não mais sair. Porque compreendi que a igreja é, mais do que tudo, a força e a fé dos que a vivem todos os dias. Dos que acreditam que, mais do que se diz e vê, é o que se faz com a fé, essa que, sem obras, de nada vale. Porque me apercebi que questionar é uma forma sensata de conseguir acreditar, que acenar cegamente que sim apenas nos diminui e que é a pensar que verdadeiramente se compreende o mistério da fé.
Nunca fui uma católica convencional. Discuti acesamente com um bispo auxilar na véspera do meu crisma, devido à estupidez que era a minha mãe não poder comungar, pelos cânones convencionais, só por ser divorciada. Ah, que se anula o casamento. Mas porquê, se o amor existiu, e é fruto da nossa imperfeição humana ele ter terminado? Não cheguei a comparecer à reunião que ele marcou comigo para discutirmos o assunto.

Comecei a dar catequese aos dezasseis anos, as unhas pintadas de verde ou de azul, as orelhas (como hoje) com furos em abundância. Claro que a reacção dos pais das crianças da minha paróquia pode não ter sido a melhor ao início. Mas lá está, as obras, que são tanto mais do que as aparências.
Nos entretantos, falei com diversos párocos que me asseguraram que a minha mãe não só podia, como seria totalmente bem recebida se comungasse: afinal, fora o único elo de ligação que eu tinha tido com a mensagem de Cristo nos tempos em que a própria igreja me excluíra.

E eis que chegámos à Páscoa. Que é só o ponto mais alto de toda a fé cristã. Ele vive. A sua mensagem fez e faz sentido para quem a vive. Tão simplesmente isto. Que valem a pena os sacrifícios de não ser in por se ser católico. Por nos verem como uns parolos tótós. E o que faz sentido é precisamente sermos quem somos.

 

 

E era mais ou menos isto que eu pensava ontem, quando a M. e o R. celebravam o casamento. Que não foi religioso. Que não foi espampanante. Que foi tão simples e tão ternurento que quase me levou às lágrimas. Que mostra, pela milésima vez, que não é preciso dinheiro, que não é preciso trezentos convidados, banda ao vivo, comida super chique, quando se tem a simplicidade e a cumplicidade que eles têm. E isso, é tão, mas tão mais importante. Melhor, é tudo o que é importante.
E garanto-vos que Deus, seja ele quem ou o que for, vai sorrir de cada vez que se lembrar do dia de ontem.

publicado por Vita C às 19:26
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2 comentários:
Concordo com cada uma das palavras que escreveste... Deus é muito mais do que aquilo que nos ensinam na catequese... Também eu fui educada na Igreja, fiz Catequese toda e ainda andei na "Legião de Maria". Um dia disse ao Padre que não achava necessidade de nos confessarmos a ele, Padre, quando o podiamos fazer directamente com Deus, afinal em oração eu falava com o meu Deus sempre que queria... Ia sendo chacinada! A partir daí a coisa perdeu beleza... fui-me afastando! Andei perdida e revoltada até nascer a minha filha, e nessa altura Deus puxou-me novamente para ele, como um himan... Não sou praticante, acredito no meu Deus, à minha maneira, e sei que ele não me condena por isso!
soumaiseu a 12 de Abril de 2012 às 11:29

Eu também disse isso ao padre, de não sentir necessidade de me confessar a ele, mas a reacção foi muito diferente, fez um apelo à noção de comunidade e assembleia e respeitou o meu sentimento. Continuo a achar que a igreja é feita por quem nela participa, o quem nem sempre se resume ao clero com mofo e bafio ;)
Vita C a 16 de Abril de 2012 às 10:00

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