espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

24
Jun 10

 

Li o Evangelho segundo Jesus Cristo como exercício de contestação da fé. O meu eu católico e o meu eu de esquerda sempre conviveram muitíssimo bem e de forma absolutamente coerente, e o texto de Saramago apenas veio confirmar este entendimento.

E depois foi uma torrente. Devorei os livros de Saramago com uma satisfação tremenda e um respeito profundo. Nunca consegui escolher um preferido. Emocionei-me com a morte de Pedro Orce, assustei-me com o crescimento do Centro, revi as linhas dos créditos nas cassetes de VHS em busca de sósias, deambulei por Conservatórias, tive fome, tive sede, vi e deixei de ver, abracei elefantes, votei mentalmente em branco, tive pena da Morte e das mortes, e perdi-me por este Portugal.

Talvez o Levantado do Chão tenha sido o que maior impacto me provocou. Pela crueza da descrição e do real, pelo pormenor vívido, por alimentar a minha convicção.

Nunca conheci Saramago. Um homem que é censurado no seu próprio país e escolhe outro para viver está no seu direito. Pena é que tenha este país tão pouco senso, afinal veja-se que o homem ganhou o Nobel. Não conheci as manias, as obsessões, as arrogâncias, as ternuras (excepto as dedicatórias a Pilar) ou qualquer outro aspecto do seu lado humano. Nem é esse que me faltará.

Se Deus escrevesse, seria ambidextro. A mão direita seria Garcia-Márquez, a esquerda (claro), Saramago.

Se Deus escrevesse, teria perdido uma mão.

publicado por Vita C às 09:56

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