espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

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Jan 14

 

O G*. foi o meu primeiro caso enquanto terapeuta. Aliás, o N. foi o meu primeiro caso enquanto estagiária. O G. é um tipo bem sucedido, pouco mais velho que eu, com um talento musical assombroso (e precocemente desperdiçado) e uma sensibilidade interpessoal impressionante.

O G., dizia eu, foi o meu primeiro caso. Filho de pai e mãe, ambos morreram de overdose quando ele era miúdo e o G. ficou então ao cuidado dos avós e da tia. Cresceu, fez amigos, amigas, entrou para a faculdade, namorou com uma rapariga, e quando entra em processo terapêutico G. define-se como bissexual. Ora já nessa altura se sabia que a homossexualidade e a bissexualidade não são nem uma doença nem uma opção (eu não escolho gostar de homens, acontece assim comigo e pronto, o mesmo se passando convosco). O G. estava convencido de que estava completamente resolvido na sua sexualidade e eu, enquanto terapeuta, convencida estava que, "se ele está bem, eu também estou bem". Nas nossas sessões abordámos temas bastante transversais a qualquer sexualidade, as expectativas nas relações, as nossas formas de estar, pensar e agir, etc., etc., e tal.

Como cliente JAVIS** que era (aparentemente), o G. foi quase minha cobaia. Recordo perfeitamente a sensação de orgulho que me invadiu da primeira que chorou numa sessão nossa. Sim, os estagiários têm uma noção muito pérfida sobre algumas ocorrências no processo terapêutico. E um dia, chega e diz qualquer coisa como "Ana, estive a pensar e, para ser verdadeiro comigo, eu sempre soube que sou homossexual, mas nunca consegui lidar muito bem com o que os outros iriam pensar". Aqui os outros eram sobretudo a família que tinha sobrevivido ao flagelo de ver um miúdo sobreviver à morte dos pais pela droga para se ir meter no país dos paneleiros.

O G. sobreviveu a tudo isto, contou à família, à namorada, continuou a estudar (é um dos muito bons naquilo que faz, emigrou, regressou e agora emigrou novamente), e é um homem extremamente bem sucedido actualmente, quer no campo profissional quer nos domínios familiares e afectivo. Tem uma relação estável, sólida e cheia de significado. Se algum dia me perguntarem se o G. daria um bom pai, eu não teria dúvidas. Porque sei que ele seria muito melhor pai ou mãe do que alguns que vou encontrando ao longo do caminho. Se algum dia a co-adopção lhes surgir no horizonte, ficarei muito feliz.

Porque este referendo e esta urticária serve apenas para apascentar os nossos preconceitos. Nada mais.

 

*inicial fictícia de pessoa bem real.
** jovem, atraente, verbal, inteligente e (bem) sucedido

 

publicado por Vita C às 18:35

5 comentários:
Olá minha linda! A mim confesso que me faz confusão, mas prefiro casais "estranhos" que são pais ou mães excelentes, do que casais "normais" que não dão uma para a caixa... as crianças devem estar a cima de tudo e qualquer coisa, e é só isso que importa! Não é a nossa orientação sexual que define as nossas competências de mãe ou pai... demorei a chegar aqui, demorei a admiti-lo, mas hoje consigo-o dizer. Sim, sou a favor! Faz-me um bocadinho de confusão mas não posso ser contra! Beijinhos linda Ruiva! Bom fim de semana!
soumaiseu a 24 de Janeiro de 2014 às 15:06

A mim também me faz confusão, sim, claro, admito-o... Mas lá está, prefiro mil vezes que uma criança se sinta amada e querida e desejada do que refém de preconceitos que urge derrubar :)
Vita C a 4 de Fevereiro de 2014 às 21:53

Que existam muitos G.s no mundo para amar as crianças que (ainda) não tiveram essa sorte.

Beijinho,
m-M a 4 de Fevereiro de 2014 às 09:50

Também acho... mas enquanto se vir o desvio como algo não natural (o "casamento na sua forma natural" é uma expressão que me horroriza) não estamos a ter em conta o verdadeiramente importante. Lá chegaremos :D
Vita C a 4 de Fevereiro de 2014 às 21:55

Sim, lá chegaremos! :)
m-M a 5 de Fevereiro de 2014 às 08:59

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