espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

06
Jun 13

 

 

Este é um texto politicamente incorrecto.

Há dias, a propósito do falecimento do Rodrigo (cuja doença desencadeou um dos momentos de origem blogosférica mais tocantes de que tenho memória), alguém, atordoado pela dor da injustiça da morte de uma criança que mobilizou tantos, escreveu algo como "a vida é uma puta".
Se a questão é se alguma mãe deve sobreviver ao filho, então não, claro que não, obviamente que não. Nem imagino a dor dilacerante da perda, o chão que se esvai, o tempo que se esgota e que parece estar a mais.

Mas encarar a vida como um não ser, como um não fim, como uma injustiça, como se nos fosse possível alhearmo-nos desta vida porque outra vida partiu. A vida é. Ponto. Compete-nos, passado o choque, a renúncia, a dor, a negação, encaixarmos de novo as peças do puzzle, trazer umas quantas novas, retirá-las e recolocá-las as vezes necessárias. Os dias passarão, a vida continuará. Independentemente de a chamarmos de puta ou de santa, a vida permanece, inexorável, até que se finda em nós. E nessa altura, outros chorarão, berrarão, perguntarão porquês e dirão não é justo.

Não falo de ânimo leve. A minha vida, como a de toda a gente, não tem sido um mar de rosas. O meu avô morreu de cancro deixando a minha família orfã irremediavelmente. O meu tio morreu de cancro. O meu pai teve um enfarte no Natal passado. Uma das minhas melhores amigas morreu atropelada quando eu tinha 15 anos e era demasiado nova para assimilar a ideia de que podemos morrer num ápice porque alguém vem em excesso de velocidade. A minha tia tentou suicidar-se mais vezes do que me consigo recordar. A minha mãe teve três trabalhos para nos sustentar sozinha e nunca esteve nas festas da escola ou do desporto em que eu aparecia. Nunca esteve nas atribuições de medalhas de mérito por estar sempre a trabalhar. Vivi durante dois anos sem móveis em casa à excepção de um colchão e um frigorífico e continuei a ir para a faculdade e para o trabalho sem ninguém dar por nada. Comi durante muito tempo uma única refeição por dia. Recebi avisos de despejo cujo prazo terminava na véspera de Natal. A minha mãe passou mais de duas semanas a ir e vir todos os dias para o hospital sem se aperceber se a filha sobrevivia ou não à pneumonia instalada. Entre outros contos. Entre outras histórias. Por isso, como quase todos, já me deixaram cicatrizes na alma que não me derrotaram. Fizeram-me mais forte, diz-se por aí que refinaram o meu sentido de humor. Porque de tudo o que me aconteceu, consegui aproveitar o lado do bom do que perdi. Ninguém consegue incutir em mim mais afinco do que memória que trago do meu avô, abraçado a mim enquanto levava oxigénio. Ou nada me consegue fazer serenar mais do que recordar as palavras seguras da D. Isabel na minha primeira noite no hospital.

Todas as minhas cicatrizes fecharam, como um dia fechará a que a mãe do Rodrigo agora tem, escancarada, em carne viva e em alma esgarçada. E porque todas se fecharam, ou até para que todas se fechassem, tive de escolher acreditar que a vida não é uma puta. A vida é. Existe. Como olhamos para ela, como nos deixamos dominar, como partimos ou deixamos partir, isso é que é viver.

Não imagino, repito, a dor da mãe do Rodrigo. Nenhuma mãe deveria ter de sobreviver aos filhos. Mas nestas alturas, em que a injustiça nos parece toldar o raciocínio, recordo-me sempre da música que trauteio mentalmente em todos os momentos de partida.

 

Mas Deus leva os que ama
Só Deus tem os que mais ama
(Trovante)


EDIT: eis como ajudar, um pouco de cada vez, a que haja menos Rodrigos e mais finais felizes.

publicado por Vita C às 15:38

4 comentários:
Não podias ter falado melhor e mais assertivamente. Gostei! Gostei mesmo muito... duro mas verdadeiro, como deve de ser, ainda que nem sempre seja possível, mas....
soumaiseu a 6 de Junho de 2013 às 20:17

Sim, é duro. E ainda assim, mais duro é viver e passar o tempo a amaldiçoar a vida em vez de a viver e usufruir.
Às vezes o que mais custa é perceber que isto pode não ter sentido nenhum para além do sentido que nós lhe damos...
Vita C a 9 de Junho de 2013 às 20:24

Tal como disse no meu blog sobre este post, é isto mesmo.

Excelente post.
Carla a 7 de Junho de 2013 às 09:55

Obrigada :)
Vita C a 9 de Junho de 2013 às 20:24

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