espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

18
Jun 09

Eu tinha 15 anos no dia 15 de Outubro de 1996. Foi uma terça-feira, como poderão confirmar num calendário. Estava na escola, e lembro-me de que nem fazia frio ou calor... às 8h da manhã estava a conversar com uma colega sobre o "Benfica jogar em casa" (raio de expressão para as miúdas dizerem que estão com o período, tão sonsinhas que éramos), e ela não percebeu, ficou-lhe na retina a metáfora futebolística, e teve a Alda de lhe explicar o que eu quis dizer...

Chamo-lhe Alda por ter sido esse o seu nome. No intervalo das 10h, o intervalo grande dos 15 minutos, não fui ter com ela e disse-lhe até amanhã de raspão. Recém-integrada numa turma que não era simpática, a adolescente rebelde dentro de mim estava preocupada com as novas amizades a fazer. Até amanhã, porque não tinha aulas nessa tarde. Ela afastou-se e nunca mais a vi.

Às seis da tarde ligaram-me para casa. A Alda tinha sido atropelada à saída das aulas. Diz quem passou por lá, que parecia um "saco de batatas", contaram-me mais tarde, sem saber que o saco de batatas tinha sido das pessoas mais próximas de mim. Passei a notícia a quem tive de passar, entre lágrimas e soluços liguei várias vezes para a mesma pessoa por engano, e segui para o velório. No dia seguinte não fui às aulas. Na quinta-feira, contra a vontade do Conselho Directivo, com mais uns quantos (poucos) amigos da Alda, ocupei a Avenida das Descobertas, onde um carro, a mais de 100km/h, nem tempo teve de travar.

Começámos poucos, vieram mais uns quantos, que nem a conhecendo, não se importaram de faltar às aulas, e depois chegou a televisão. Meses mais tarde, foi feita uma passadeira aérea, que de tão bem projectada, não é utilizada, tendo em conta o desvio que é preciso ser feito para a poder atravessar. Continuaram a morrer ali pessoas.

Mas para mim, a Alda morreu. Tinha ela 16, eu 15 anos. E hoje, mais de 10 anos passados, tanta coisa. Ainda seríamos amigas? Não sei. Sei que nunca saberei. Eventualmente, as gentes morrem(-nos) nesta idade, avós, tios afastados, avós de amigos. Amigos é mais raro. A Alda era fanática por Metallica, como eu nunca fui. Nas mãos, quando foi a enterrar, tinha uma t-shirt da banda. Ainda assim, reconhecendo a minha pouca predisposição para os meninos, de cada vez que os ouço, é dela que me lembro mais. O bilhete para o Alive! 09 está para breve. Metallica como cabeças-de-cartaz na minha vila, no concelho dela.

Ela, que a propósito, fazia anos hoje...

 

 

A história da gaivota é pessoal e intransmissível.

publicado por Vita C às 20:36

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