espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

10
Fev 11

 

fotografia de Carla Salgueiro

 

Vivo no mesmo bairro há 30 anos. Uma eternidade. Foi aqui que dei os primeiros passos, foi a estas gentes que a minha mãe pediu que olhassem por mim e pelo meu irmão e vigiassem as nossas traquinices. Quando estava doente, o senhor do café subia estes 2 andares para me trazer uma sopa. O senhor Abel da mercearia que agora é uma loja de pijamas, e que já morreu há muitos muitos anos, deixava-me brincar com a caixa registadora, que era ainda daquelas que pareciam uma máquina de escrever em ponto grande. Ainda hoje é no café da rua que a bica me sabe melhor. O senhor da papelaria faz anos no mesmo dia que eu e trocamos sempre umas piadas a propósito disso. Na farmácia perguntam sempre pela família toda e quando vou buscar coisas fora de horas, nunca me levam a taxa respectiva. Conheço esta gente como só se pode conhecer num bairro.
A juntar ao meu bairro, resumido a duas ruas e, nessas ruas, a dois quarteirões, eu tenho um cão. Pequeno. Fofo. Conhecido de toda a gente. Aliás, sempre tive. Cães são do melhor terapêutico que se pode ter. Neste momento, tenho um cão e um coelho, mas é do cão que estamos a falar. Só quem nunca teve um destes é que não sabe a quantidade de conhecimentos que se travam. Só com este já conheci a D. Rosa, que é só Rosa, mas chegou aos 22 anos e ganhou o título de Dona (curiosamente não sei o nome da dona da Dona Rosa), e garanto-vos que chorei quando soube que (finalmente) tinha morrido; o Cookie, os grandes da rua, a Joana (a Joana era uma cadela enorme que atormentou a minha infância e foi com imensa tristeza que deixei de a ver a rondar esta zona, pois acompanhei todo o processo de degradação dela, e das donas, que sempre a trataram como eu trato o meu cão: mais um na família), e tantos mais.


Dois desses tantos mais eram um schnauzer gigante e um schnauzer pequeno, ambos pretos, castiços e devotos ao dono. O catraio andava sempre com o jornal na boca, ou o maço de tabaco que o dono comprava. A cabeça do grande é do tamanho do corpo do meu inteiro. Meigos, mas não dados a toda a gente. E extremamente bem educados pelo dono. Várias vezes falei com o senhor e lhe elogiei os cães, e sempre me comoveu o olhar brilhante com que ele agradecia. Pois que dá muito trabalho educar tão bem um cão, exige muito esforço, muita dedicação, muito tempo, que isto não é só deita e dá a pata. Sempre gostei deste senhor, nunca o vi sem os cães, e sempre notei na cumplicidade entre ele e os seus animais pretos.
Soube há uns tempos, muito antes do Natal, que o senhor estava doente. Seriamente doente, um cancro, sempre esse filho da puta, tinha reaparecido, e vi com estes olhos, como o seu corpo mirrou e o seu rosto ganhou covas e rugas das que dói só de ver. E depois o senhor desapareceu. Estará internado, comentava eu, e raramente via os cães. Soube hoje que a sua esposa está viúva. E que os cães vêm à rua, o grande com a filha, o pequeno com ela, a viúva, mas que nunca mais ficaram a mesma coisa, parece que perderam toda a alegria. E eu hoje perdi um pouco da minha alegria. É de viver num bairro, digo eu. É por sempre ter tido cães, digo eu. Ou então é por estar farta desta merda destes cancros que aparecem onde menos se espera, em quem menos esperamos. E porque as partidas são sempre assim...

 

(final, de rodrigo leão, a acompanhar este post)
*Dave Matthews Band

publicado por Vita C às 12:41
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