espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

13
Fev 11

 

Tinham o rosto aberto a quem passava 
Tinham lendas e mitos 
e frio no coração. 
Tinham jardins onde a lua passeava 
de mãos dadas com a água 
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente 
o milagre de cada dia 
escorrendo pelos telhados; 
e olhos de oiro 
onde ardiam 
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos, 
e silêncio 
à roda dos seus passos, 
mas a cada gesto que faziam 
um pássaro nascia dos seus dedos 
e deslumbrado penetrava nos espaços.

 

(Eugénio de Andrade)

(e sim, sou eu a
li em cima)

 


publicado por Vita C às 14:11

12
Fev 11

Que fenomenal que é levantar às 7h00 da manhã a um sábado para ir para um seminário ... sobre riscos na construção civil.
Já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio... só mais uma noite de quinta-feira e um sábado o dia todo. Já vai a meio, já vai a meio...

(sou psicóloga, o que é que querem, eu trabalho em serviços específicos para a indústria e construção, sem que sejam serviços de contrução, não entendo nada de cofragens, carros de avanço, pré-esforçados, betão armado e essas coisas, eu na verdade nem gosto de engenheiros, salvo raríssimas excepções, eu é mesmo mais outro comprimento de onda, eu tento, eu esforço-me, mas não consigo nem gostar nem achar a mínima piadinha a estas coisas, dêem-me um DSM-V TR, dêem-me treino de competências, POCs, dêem-me coisinhas que façam pensar e esforçar a mente, não estas coisas frias e sem gracinha nenhuma)

 

(e aquela malta a jogar nos portáteis nas aulas?)

publicado por Vita C às 20:14
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10
Fev 11

 

fotografia de Carla Salgueiro

 

Vivo no mesmo bairro há 30 anos. Uma eternidade. Foi aqui que dei os primeiros passos, foi a estas gentes que a minha mãe pediu que olhassem por mim e pelo meu irmão e vigiassem as nossas traquinices. Quando estava doente, o senhor do café subia estes 2 andares para me trazer uma sopa. O senhor Abel da mercearia que agora é uma loja de pijamas, e que já morreu há muitos muitos anos, deixava-me brincar com a caixa registadora, que era ainda daquelas que pareciam uma máquina de escrever em ponto grande. Ainda hoje é no café da rua que a bica me sabe melhor. O senhor da papelaria faz anos no mesmo dia que eu e trocamos sempre umas piadas a propósito disso. Na farmácia perguntam sempre pela família toda e quando vou buscar coisas fora de horas, nunca me levam a taxa respectiva. Conheço esta gente como só se pode conhecer num bairro.
A juntar ao meu bairro, resumido a duas ruas e, nessas ruas, a dois quarteirões, eu tenho um cão. Pequeno. Fofo. Conhecido de toda a gente. Aliás, sempre tive. Cães são do melhor terapêutico que se pode ter. Neste momento, tenho um cão e um coelho, mas é do cão que estamos a falar. Só quem nunca teve um destes é que não sabe a quantidade de conhecimentos que se travam. Só com este já conheci a D. Rosa, que é só Rosa, mas chegou aos 22 anos e ganhou o título de Dona (curiosamente não sei o nome da dona da Dona Rosa), e garanto-vos que chorei quando soube que (finalmente) tinha morrido; o Cookie, os grandes da rua, a Joana (a Joana era uma cadela enorme que atormentou a minha infância e foi com imensa tristeza que deixei de a ver a rondar esta zona, pois acompanhei todo o processo de degradação dela, e das donas, que sempre a trataram como eu trato o meu cão: mais um na família), e tantos mais.


Dois desses tantos mais eram um schnauzer gigante e um schnauzer pequeno, ambos pretos, castiços e devotos ao dono. O catraio andava sempre com o jornal na boca, ou o maço de tabaco que o dono comprava. A cabeça do grande é do tamanho do corpo do meu inteiro. Meigos, mas não dados a toda a gente. E extremamente bem educados pelo dono. Várias vezes falei com o senhor e lhe elogiei os cães, e sempre me comoveu o olhar brilhante com que ele agradecia. Pois que dá muito trabalho educar tão bem um cão, exige muito esforço, muita dedicação, muito tempo, que isto não é só deita e dá a pata. Sempre gostei deste senhor, nunca o vi sem os cães, e sempre notei na cumplicidade entre ele e os seus animais pretos.
Soube há uns tempos, muito antes do Natal, que o senhor estava doente. Seriamente doente, um cancro, sempre esse filho da puta, tinha reaparecido, e vi com estes olhos, como o seu corpo mirrou e o seu rosto ganhou covas e rugas das que dói só de ver. E depois o senhor desapareceu. Estará internado, comentava eu, e raramente via os cães. Soube hoje que a sua esposa está viúva. E que os cães vêm à rua, o grande com a filha, o pequeno com ela, a viúva, mas que nunca mais ficaram a mesma coisa, parece que perderam toda a alegria. E eu hoje perdi um pouco da minha alegria. É de viver num bairro, digo eu. É por sempre ter tido cães, digo eu. Ou então é por estar farta desta merda destes cancros que aparecem onde menos se espera, em quem menos esperamos. E porque as partidas são sempre assim...

 

(final, de rodrigo leão, a acompanhar este post)
*Dave Matthews Band

publicado por Vita C às 12:41
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09
Fev 11

publicado por Vita C às 13:56
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07
Fev 11

 

A human being that was
Given to fly

publicado por Vita C às 21:42

06
Fev 11

Os problemas com o meu portátil são bem conhecidos neste blog. É também sabido que não me é possível funcionar sem música, que ouço preferencialmente no dito portátil porque não só não tenho aparelhagem e a música está quase toda num disco externo (que raramente funciona) mas também porque sou, digamos, viciada assídua no last.fm. Sou uma scrobbleraddicted, confesso.
Então, com três euros por mês (menos de um maço de tabaco que não fumo), subscrevi-me no last.fm, com a particularidade de ouvir todas as rádios, as recomendações, a minha rádio, as minhas músicas que há tanto tempo não tinha acesso, as rádios dos vizinhos e amigos (eat this facebook!) e enfim, um mundo de música boa, boa, boa, com tags e tudo, por descobrir. E que scrobbla, ao contrários das restantes rádios online!

publicado por Vita C às 21:49
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05
Fev 11

E foi hoje.

Entre ter ido ver o Black Swan* ontem à última sessão, ter acordado às sete e meia para ir a um seminário sobre segurança na construção civil na outra ponta da cidade, tive algum, escasso, tempo para me mentalizar: hoje tive a minha primeira consulta desde 2007.
O consultório, meu aos sábados e às segundas-feiras ao fim da tarde, com um arrastar de cadeirões para aqui e um acender de candeeiro para ali ficou exactamente como eu queria: pequeno, mas acolhedor, simpático, seguro. Acertei com as chaves das portas à primeira, estacionei o carro na própria rua, cheguei lá uma hora antes, que o nervoso miudinho não era pequeno (era mais um nervoso miudão).
Depois, depois o fluir, o canal sombra, sempre lá, o ouvir, o escutar, o reatar deste laço terapêutic, que se explica mas sobretudo que se sente, a dança e a pauta das intervenções, as tomadas de decisão que vêm à flor da pele, a sensação de sermos tão mínimos mas tão impactantes que por vezes pura e simplesmente não conseguimos descrever. Um tique-taque mudo e surdo, o estar aqui e agora e lá e então, o desafio constante, a aceitação transmitida, a reflexão partilhada.
Tudo isto, e muito mais, que não caibo em mim. Tudo isto e tanto mais, tanto mais que um simples estereótipo da profissão, que somos mestres a decifrar mentes, que somos exímios a interpretar sonhos e palavras e ideias, que sabemos tudo, que compreendemos tudo, quando esse tudo é sempre partilhado, tentado, experimentado, uma técnica que se aperfeiçoa nada mais é que uma ferramenta. O que verdadeiramente importa é a viagem.

 

* sou uma insensível, ao que parece, pois quando o filme terminou o que eu tinha na retina era a cena final do Billy Elliot, esta mesma que aqui está a ilustrar tudo aquilo que tenho cá dentro e que ainda não se traduz em meras palavras, essas que eu tenho como principal instrumento nesta arte que também é uma profissão.

 


publicado por Vita C às 21:23

03
Fev 11

Coisas que me irritam de verdade são poucas. A saber: gente que vai no autocarro a ouvir música sem fones, gente que cospe para o chão, que deita papéis para o chão, gente sem civismo, como se todos nós lhes devessemos e ninguém lhes pagasse.
Pior ainda, gente que não faz a mínima ideia de como se fala ou escreve português. E depois ainda vai debitar as suas doutas opiniões virtuais inchados da sua proverbial sapiência ignorante. Todos os dias leio sites de notícias que permitem comentários absolutamente imperdoáveis (igepcíos, really? preguisoso, come again? pluridicilar, sim, uma equipa pluricoisa que não sei escrever o resto, e poderia continuar ad eternum) sempre renovadas com os comentários, os posts, os sites, enfim, toda uma panóplia colorida do fenómeno multimédia da internet.
Bem longe de mim ser uma purista da língua: já me chega ser uma acérrima opositora ao (des)acordo ortográfico e manter a minha escrita fiel ao que sempre foi, mas julgo que há mínimos. Para evitar o ridículo e, de não somenos importância, ser um pouco mais ... instruído? Ciente de que a língua não é adaptada à nossa ignorância, antes esta última deve ser combatida. Sempre. Cada vez mais.

Para finalizar, esta pérola da Teresa, sobre a qualidade do serviço nos canais portunhóis da televisão por cabo (ou fibra, ou supermegatecnologicamente superior, não me lixem, que a minha TV ainda é CRT).

publicado por Vita C às 15:42
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01
Fev 11

É sabido, eu gosto de mafiosos.

 

No Facebook...

 

(antes que pensem que trabalho para os sicilianos ou para os moldavos, basicamente nas instalações da minha empresa trabalha também outra empresa, e estes mimos eram destinados a esta última... resultado: homeworking até ao resto da semana)

 

publicado por Vita C às 15:34

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