espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

21
Out 11

Preâmbulo:

Não sou particularmente dada a comentar notícias aqui no estaminé. Não tenho jeito e o discernimento às vezes inflama-se. Este não é um blog de comentário político e social: sou muito mais dada à acção do que às palavras, nesse campo. Mas hoje tem de ser. Vai ser duro e algo longo, mas tem de ser. 

 

Sou pacifista por natureza e por educação. Sou limitada pelo facto de ter crescido num Portugal pós-ditadura e nunca ter passado as injustiças do povo líbio, iraquiano, turco, curdo, chinês, chileno, ou qualquer outro. Sou uma espectadora. Não tenho a culpa disso. Sou também contra a pena de morte.

 

 

Os Estados Unidos queriam Saddam Hussein morto.

O argumento da liberdade para todos os iraquianos não me faz esquecer o petróleo que existe, no Iraque e no Koweit. O argumento das armas de destruição massiva que não foram encontradas tem o seu quê de birra infantil.

Saddam era uma aberração da humanidade? Claramente. Os curdos e os xiitas que o digam. Saddam esteve à frente de actos absolutamente indizíveis. Julgado por um tribunal especial que levanta dúvidas a algumas organizações (a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch são algumas delas) e cujas costas devem certamente encontrar-se alargadas pela stars & stripes, o velho fugitivo, arrogante e selvático, foi condenado à morte por enforcamento. Não teve direito sequer à última oração. Justiça, diz a maioria. A morte de um homem que há mais de quarenta anos que não conhecia forma de estar que não o poder absoluto e nem capaz era de conceber outra forma de mundo, essa morte de um homem acossado e humilhado, trouxe alguma justiça a este mundo? Alguma paz? Os atentados no Iraque livre continuam independentemente da morte de Saddam.

 

 

 

 

Os Estados Unidos queriam Osama Bin Laden morto. O mesmo Bin Laden que anteriormente brilhara na guerra contra os soviéticos. O mesmo que lhes fez explodir embaixadas, navios e as torres gémeas. O homem mais procurado do mundo, que lhes inflingiu um duro golpe. Desprezível a sua falta de respeito e consideração com a vida humana. O seu extremismo terrorista sem fronteiras ou apaziguamentos mudou a forma como encaramos o mundo. São várias as histórias comoventes do 11 de Setembro e, garanto-vos, o horror que emana de mim quando me recordo das pessoas a saltarem para o vazio arrepia-me. Contudo, nenhuma dessas pessoas ressuscitou quando Bin Laden morreu, a dor não passou nos familiares que julgam ter visto fechado um ciclo.
Recordo-me dos milhares de americanos a exultarem de alegria com a notícia da morte deste homem. Os fanáticos que rejubilaram com a queda das torres gémeas deram lugar aos fanáticos que festejaram esta morte. O mundo não mudou sem Bin Laden: o terrorismo continuará a justificar acções lideradas pelos americanos, apologistas da liberdade, mas que têm nesta morte uma vingança insípida.  

 

 

 

Quanto ao motivo que me fez dormir mal esta noite e que tem povoado as notícias, a morte de Khadafi, esta dá título a este post. Um monstro, indubitavelmente. Mais precisamente, um louco que, como Saddam, bebeu demasiado da poção do poder e se tornou numa distorção da humanidade. Infeliz e ironicamente, resolveu tomar conta de um país rico em petróleo. Animalesco era Khadafi, mas a vida nem sempre é branca ou preta. Nelson Mandela (o nome fala por si) intercedeu por este animal relativamente aos atentados de Lockerbie.

Tendo sonhado com os Estados Unidos de África, acabou morto da forma mais repulsiva que consigo encontrar. Velho, decrépito, e, mais importante, indefeso. Sem julgamento. O povo foi tão selvagem como o próprio Khadafi e creio que com consentimento externo (estou aqui a pensar se os EUA deixam que algum destes senhores de que aqui falo morram sem a sua autorização). Repito: velho, indefeso, humilhado. Resta ver o que se avizinha, além da manifestação de êxtase de ontem.

 

 

 

Sou um pouco suspeita, comecei por referir que me oponho ferozmente à pena de morte. Não quer isto dizer que seja uma ingénua que acredite na justiça e na reconversão humana. No caso destas três pessoas, seria injusto e absolutamente imoral deixá-los com comida, cama e roupa lavada numa prisão (assumo que numa prisão a regra deve ser a não tortura e não o oposto, e aqui poderíamos dar o mote para o encerramento dos métodos de Guantanamo, mas isso seria outra história e o post vai longo).
Não obstante, abomino a pena de morte. Ela não traz sossego aos próximos de quem morreu. Ela não traz paz, nem justiça. Matar não traz uma máquina do tempo para emendar os erros. Porque não colocar estas pessoas num campo de trabalhos? A trabalharem para poderem comer? 

Tenho algum receio desta humanidade a que pertenço. Honestamente, sei que é capaz do melhor e do pior, mas assusta-me a noção do quão cruéis podemos ser quando temos a possibilidade de decidir pelas nossas mãos.

Não sei, não tenho dons para a erradicação da maldade no mundo. Mas sei que não sou apenas eu que tem ainda muito para aprender.

 

 

 

  

 

Nota: tive algum cuidado na selecção da foto. Não gosto de violência gratuita e desnecessária, para isso chegam os noticiários.

 

publicado por Vita C às 13:32
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