espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

13
Set 13

 

Tenho seguido de forma relativa muda a silly season que por aí anda. Tudo é preocupante, e não vale a pena juntar a minha voz ao coro de desanimados e frustrados por este país fora. Mas houve dois temas que me fizeram arrebitar a orelha (perdoem-me as analogias caninas, mas quase que confio mais na sanidade dos meus cães).

Uma arrebitadela, este texto que pretende defender os colégios militares. E aqui a devida pausa para esclarecimentos antecipados: nada tenho contra o Colégio Militar, sou neta de uma Menina de Odivelas, tive colegas e amigos que frequentaram quer o Colégio Militar quer os Pupilos do Exercito.
Posto isto, sigamos. O texto enaltece valores que, de facto, fazem falta em Portugal. Creio, sinceramente, que não estariamos numa posição tão vulnerável se tivéssemos uma estrutura de valores mais consolidada, a começar na classe política e a terminar em cada um de nós. Se tais valores são exclusivos destas instituições, parece-me óbvio que não, mas é inegável que estas prestam uma grande ajuda.

No entanto, é necessária cautela, pois ao engrandecer os colégios militares não é necessário denegrirmos as instituições "civis". O ensino publico não pode (poder pode, como se comprova, mas não deve) ser enxovalhado como ponto de comparação. Digo isto tendo sido aluna de escolas privadas, escolas públicas e ensino superior público. Acredito no ensino público e tenho urticárias valentes quando penso na incompetência política de Nuno Crato (não incompetência técnica e a ele se deve o incremento de exigências que faziam sentido há muito).

Mas com as comparações da escola militar e civil posso eu bem. Não posso é com intolerâncias de diversas ordens e com desconhecimento. Vou deixar passar a tentativa absurda de ataque à "esquerda" (nós, os de esquerda, comemos esquerdismo, bebemos esquerdismo, pensamos esquerdismo e cagamos esquerdismo, é isso? Se assim for, os militares só pensam em ...? Já viram bem o reduccionismo e a tacanhez do argumento?).

Agora, pequenices à parte, existe algo que me ofende e sobretudo me assusta, e cito: "não se aceitam fraquezas de carácter, mentirosos, ladrões, drogados, homossexuais e outras minorias de aleijados morais. Deus seja louvado! E para que as fraquezas não se transformem em vício, corta-se logo o mal pela raiz. Que nunca lhes doam as mãos!". E porque é que isto me assusta? Porque uma instituição de formação e de ensino não pode (poder pode, la está, mas não deve) pregar um absurdo científico. Já escrevi, diversas vezes, que a orientação sexual não é nem uma opção nem uma escolha, é uma característica*. 

E isto, senhores, é ciência. Ensinar o contrário é ensinar intolerância e ignorância. Creio que não é isso que se espera de instituções com valores.

 

Simultaneamente, segunda arrebitadela, esperneiam opiniões sobre a liberdade de expressão e a chamada proposta de lei anti-piropo. Ridícula? Sim. Mas tristemente necessária. Podemos ser preconceituosos, e machistas, ainda por cima? A mim tanto se me dá, ao contrário do que me diziam, nunca mudei os meus hábitos e nunca fechei as orelhas: tal como a Jonas, aprendi cedo que responder à letra era mais eficaz. Mas esta sociedade afirma que as mulheres é que têm de saber lidar com os piropos, que as grosserias não fazem mal nenhum, as mulheres é que são o sexo fraco e vulnerável. Uma pergunta para vós: queriam que um destes machos alfa oferecesse uma pila de trinta centímetros às vossas filhas e lhes prometesse uma puta duma foda até ela ficar esfolada? Não? Bem me parecia...

 

Resumindo, nestes dois assuntos, um triste retrato dum país que se preocupa mais com o que tem do com o que é ...

 

* aos curiosos, ver aqui um documentário excepcional sobre o tema

publicado por Vita C às 14:33

Setembro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
14

15
17
18
19
20
21

23
25
26
27

29


mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

30 seguidores

pesquisar neste blog
 
subscrever feeds
blogs SAPO