espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

16
Set 13

 

O fim de um processo terapêutico tem sido para mim sempre carregado de ambiguidade.

Os fins, naturais e desejáveis, pressupõem um afastamento gradual que se guilhotinam finalmente numa qualquer hora agendada. Esgotadas as sessões de follow up, apertadas as mãos ou fechados os beijinhos finais da praxe, há um semi-vazio e um semi-orgulho que combatem pelo meu peito dentro. Um vazio porque, reparem, os terapeutas não são seres insensíveis. Ao sermos o fiel depositário de angústias, medos, sonhos, competências, ousadias e máscaras de alguém, caramba, é difícil não nos sentirmos inebriados pela intimidade. Um orgulho, porque aquela pessoa que entrou em farrapos, e tremiam-lhe tanto as mãos no primeiro dia, como esquecer?, que entrelia tantas dificuldades e construia gigantescos moinhos de vento disfarçados de objectivos, essa pessoa não apenas caminha como os seus passos ecoam na calçada, instilando confiança e segurança a quem os ouve.

É solitariamente cru enveredarmos por uma profissão cujo último fim e primeiro objectivo é o tornar-se desnecessária. Que exige uma precisão absoluta na medida do envolvimento e do que de nós emprestamos no momento terapêutico. Cada erro reclama, inexoravelmente, peso nos ombros e mordaças na alma. Somos os únicos a cometer erros. Podemos fracassar por diversos motivos e fantasias, mas somos apenas nós quem erra em terapia e sobre nós recaem mitos, estereótipos e bandas desenhadas que persistente e pacientemente desfazemos, como Penélope. Compomos peças musicais para serem executadas uma única vez, ouvidas entre quatro paredes seguras, tão seguras quanto a nossa convicção de que ao darmo-nos, recebemos preciosidades em bruto. Ou segredos, confidências e embaraços. Tanto, que somos elásticos.

É indescritível o fim de um processo terapêutico. Reduz-nos ao nosso papel, ensina-nos e recorda-nos que somos uma ínfima parte do processo de mudança. Mas exorta-nos a continuar. Outras pessoas, outros lamentos, outros sonhos, outros risos. Outras peças a serem escutadas uma fugaz vez. Não mais importantes. Não menos importantes. Diferentes. A caminhar para o fim. Que é o natural. O desejável.

Agarro-me ao semi-orgulho, mas não me envaideço. As despedidas são manejadas habilmente, mas não de forma fria. Nem vazia. Creio, por mim, que ser terapeuta é uma forma excepcional de sentir os outros. Cada pessoa me traz um pedaço novo, cada pessoa leva um pedaço de mim. E assim me mantenho constante, mas diferente.

publicado por Vita C às 00:42
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