espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

05
Out 13

Sou uma forreta, é sabido. Mas, em minha defesa, permitam-me acrescentar que sou um coração de ouro.

Profissionalmente, tenho uma política de facilitação, mediante comprovativo, as sessões para desempregados ou estudantes são a metade do preço. É uma prática como qualquer outra, e que tem vindo a dar os seus frutos. Mesmo que continue a fazer diferença no orçamento lá de casa, se calhar o Fulano consegue pagar vinte euros uma vez por mês ou, na loucura das loucuras, de quinze em quinze dias, a Sicrana até pode ser que consiga continuar a terapia depois de ter interrompido as três tentativas anteriores. Fulano e Sicrana, nomes ficticios mas casos (bem) reais.

Atenção, nunca concordei nem concordarei com voluntariado de psicólogos ou estágios não remunerados. Mas concordo que todos têm os seus direitos: o psicólogo a ser remunerado pelo seu trabalho de qualidade, o cliente a ser ajudado por alguém competente.

Hoje estava a ter a primeira sessão com Beltrana. Beltrana, supermulher por necessidade, não é nem estudante nem desempregada. Mas é a única que está empregada numa casa de dois adultos e duas crianças. O marido está desempregado há mais de três anos. As filhas têm dificuldades de aprendizagem, uma delas ainda nem vai a escola por não haver dinheiro, e Beltrana sustenta a casa com o seu vencimento de administrativa, numa empresa que agora está a ser alvo de fusão ou aquisição, ou lá o que aqueles senhores das notícias estão a decidir, decisões no papel que se avolumam qual guilhotina sobre as cabeças da família de Beltrana.

E pronto, disse a Beltrana que o valor das sessões seria metade do estipulado, ela chorou, rebentou as águas da represa que vem construindo e, no fundo, munida da sua dignidade, agradeceu. Se me faz diferença? Faz*. Mas a ela faz mais...

 

Repito o que escrevi há uns meses:

É difícil ser psicólogo em Portugal. Quase apetece desabafar que é preciso ter dinheiro para exercer. E sorte. Tenho respondido para anúncios de fugir a sete pés (...) Portanto, fui para psicologia para ser psicóloga.

 

(assusta-me a ausência de esperança, o futuro carregado de cinzas e as nuvens pesadas, cada vez mais presentes em cada uma das pessoas que acompanho, e enoja-me a cara de pau dos nossos governantes no debate quinzenal, que assobiam para o lado como se já nem fosse preciso morrer, porque já estamos no paraíso)

 

*90% das pessoas que acompanho estão na situação que lhes vale o desconto. Fui eu quem decidiu os critérios. Por mês, ganho pouco mais do que o necessário para pagar o arrendamento do consultório e a gasolina da deslocação. Repito que a decisão dos critérios foi minha, e faz-me sentido mantê-los.

publicado por Vita C às 21:08

 

(o Rookie e a Pitucha tiveram direito a mini hamburguer, miminhos em dose extra e a passeio extra longo)
(lamentavelmente, nem todos os cães abandonados tiveram esta sorte)

publicado por Vita C às 19:23

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