espaço de mau feitio, alguma reflexão, música e outras panóplias coloridas

28
Set 11

Isto de ser mulher e trabalhar num mundo de homens é engraçado. Então se estivermos a falar de ir às obras fazer acompanhamento, ui ui, a parada sobe e não é pouco. Agora acrescente-se o facto de esta que vos escreve ter pouco mais de metro e meio e uma figura quase franzina.

Então lá estava eu, de botas, capacete e colete (se bem que o colete não protege grande coisa e portanto não deveria ser um equipamento de protecção, mas sim de prevenção, certo?) a averiguar os estragos provocados pelo belo do incêndio que uns senhores resolveram fazer (má educação, andam a fazer churrasco nas obras e não convidam, tá mal) e eis senão quando vejo um trabalhador meu a armar ao chimpanzé. Lá estava o pézinho sobre o topo da escada, o outro pézinho escancarado em cima de uma tubagem, e ali estava o homem, sem arnês nem coisa que o valesse (foi-se no incêndio, o arnês). Enquanto eu ia falando com o encarregado, ele ia trepando, mais um pouco, e começo eu em voz alta para o encarregado (que no fundo, é quem tem de mandar neles), "senhor Sicrano, olhe que eu não quero ver aquela merda". Sim, palavrões digo-os também nas obras, tornam-me fofinha. E disse isto em voz alta para o macaco ouvir.
Digo-lhe que se não há condições de segurança para trabalhar, enquanto não comprarmos mais arneses e afins, há trabalhos que não podemos fazer. Desceu do número de equilibrismo e diz-me que é tuga e portanto tem a arte do desenrascanço. Repito, tenho um metro e cinquenta e picos e todos os meus trabalhadores me olham de cima, por força de razão. Então fiz os possíveis para o olhar de frente e perguntei-lhe se quando cair e partir o pescoço está à espera que eu o desenrasque. "Ah, mas eu não caio", claro, respondeu-me no ar folgazão de quem sabe mas não recorda que é uma das maiores causas de morte em termos de acidentes de trabalho.
Não vou repetir o que lhe disse ao pormenor. Mas que o moço saiu de lá encarnado que nem um tomate, saiu.

publicado por Vita C às 10:50
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22
Jun 11

 

Trabalhei em 3 dias trinta e seis horas. Para a semana começo uma intervenção assaz crítica para esta empresa, onde estarei a representar o meu chefe qual cordeirinho atirado aos lobos. Mas isso é só para a semana, agora com licença que vou para o merecido descanso.

publicado por Vita C às 19:46
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16
Mai 11

Cá estamos novamente. Com a diferença que este ano a seca parece ser bem maior. E como este ano ainda não entreguei o IRS, ainda não estou calejada nestas lides paciência para plataformas.
Inspira, expira (e repete)!

 

*Os Sitiados têm um lugar muito especial cá dentro, bem como o saudoso João Aguardela.

publicado por Vita C às 15:57
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19
Mar 11

Ir à Segurex é uma experiência engraçada para mim. Oportunamente convidada por um dos formadores do curso de TSHT, lá fui eu, sobretudo para não ter de ouvir o meu querido chefe a explodir comigo (desta vez de forma justíssima). Rebebéu pardais ao ninho, é tudo muito giro, atesta a nossa capacidade de sermos flexíveis e de "não termos ilusões que vamos ter trabalho na nossa área", como eu ouço tantas vezes dizer. Claro que muitos de nós fizemos escolhas erradas. Eu, por exemplo, que entrei em psicologia porque me apeteceu candidatar a apenas um curso e uma universidade (e se não tivesse entrado tinha sido o pavor, o terror, o drama). Mas o que importa é que, melhor ou pior, ganhei competências, nem que seja empenho e flexibilidade, para poder entrar numa Segurex e dizer "nã, muito giro, mas eu não sou isto". Chegar a esta conclusão é lixado. Mas é este o meu emprego e tenho de ser boa nele se o quero manter.

publicado por Vita C às 15:28
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07
Mar 11

Sou uma pessoa complicada. Deveras. Nunca me assustou o trabalho e sabe disso quem partilhou quase dois anos da minha vida na secção de informática e telecomunicações que ainda hoje guardo no coração (e um aceno também à secção do som, foto e electrodomésticos). A sério, trabalhar é comigo.

Depois mudei-me de armas e bagagens para esta coisa da segurança e higiene do trabalho e do ambiente lá metido no meio. A psicologia ficou em águas de bacalhau temporariamente, e fui aprendendo, estudando e percebendo que este é um outro mundo onde, honestamente, nunca teria vindo parar se tivesse os dois dedos de testa que sempre pensei ter. Mas fiquei.

Então mudamo-nos de escritório e armazém e construímos do zero. Em sentido literal, monta e desmonta secretárias, móveis, pinta paredes (esta parte não me calhou, infelizmente), liga computadores e afins, em suma, toda a génese de uma empresa nascida há cinco ou seis anos. Deitar as mãos à obra, de mangas arregaçadas e com a sensação de que desta vez merecemos que as coisas resultem, porque o esforço e o empenho têm sido ímpares. Claro que todo este esforço conta também com uma certa dose do desenrascanço que também me caracteriza. 

Há no entanto uma pequena pedra no sapato, que é o saber que este empenho e esta dedicação, que eu só sei fazer as coisas assim, por vezes esbarram em pequenas dificuldades, embirrações, politiquices (é verdade, é verdade, trabalho numa área muito específica e regulamentada por legislação que, surpreendentemente, nem sempre se faz cumprir) e que todas estas merdices minam uma equipa onde se pode e deve trabalhar muito e bem. Claro que não saber se há futuro é sempre preocupante, sobretudo chegando a uma certa idade onde nos convencemos que raramente iremos fazer o que realmente gostamos (e adoptamos então a máxima de gostar do que fazemos sem com isso nos obrigarmos a um estado de resignação).

É este o país que temos. Onde o trabalhar não chega porque é preciso agradar a gregos e troianos e isso, sabemo-lo bem, é virtualmente impraticável. Ainda assim, a palavra de ordem é a de sempre: contra ventos e marés, urge remar. E esperar que a chefia, que tão bom coração tem, não tenha um AVC resultante do stress destes dias. Ou eu, que já tive melhor capacidade de encaixe e nunca tive bom feitio (eu engano, eu sei). Sobretudo eu.

publicado por Vita C às 22:00
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21
Fev 11

 

Terminado o seminário de riscos na construção civil, estou agora imersa em trabalho e mais trabalho até mudarmos de instalações. Gosto de fazer parte de uma equipa que leva a sério as pessoas, embora por vezes me queixe, embora por vezes me apeteça mandar tudo à fava. Sobretudo, gosto que reconheçam que, apesar de não ter a priori qualquer conhecimento nesta área, me esforcei por ter, me dedico e, vá lá, até vou tendo alguma competência.
Ocorre que me impus o desafio de voltar à minha praia (para não ser lamechas e escrever a minha vocação), e lá me pus a investir em cartões, site, consultório, procurar supervisão, voltar à escolinha e ter formação, não necessariamente académica, mas sobretudo prática, porque a psicoterapia não é feita de (apenas) artigos deslumbrantes. Hoje tenho uma primeira sessão com uma pessoa que nunca vi. Ontem apercebi-me da realidade e constatei que desde 2007 que não tinha uma primeira sessão, o drama, o horror, a tragédia, e passei a noite a ler, a rever casos antigos, a compilar instrumentos que tinha feito e outros que, não sendo criados por mim, me deram um jeitão tremendo, a passar os olhos pelos dossiers da formação da APTCC. E fez-se luz. Fod@-se, eu era boa no que fazia e não acreditava nisso porque o sucesso nem sempre vem aliado à qualidade. Era boa, mas não tão boa como só a experiência nos pode tornar.
E agora nem sei se isso chega. Tenho a sensação que chegarei lá e caput, não poderei deixar tudo à deriva e à mercê da minha capacidade de estabelecer uma pré-aliança, uma relação terapêutica, e ao longo do tempo que me afastei da área, deixei de ter, porque não era necessária e, honestamente, eu nunca fui daquelas que escolhe psicologia para fazer deste mundo um lugar melhor.
Tenho um QHV preparado para levar, e o resto, bom, o resto é esperar para ver. Só pode ser assim.

publicado por Vita C às 13:09
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12
Fev 11

Que fenomenal que é levantar às 7h00 da manhã a um sábado para ir para um seminário ... sobre riscos na construção civil.
Já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio, já vai a meio... só mais uma noite de quinta-feira e um sábado o dia todo. Já vai a meio, já vai a meio...

(sou psicóloga, o que é que querem, eu trabalho em serviços específicos para a indústria e construção, sem que sejam serviços de contrução, não entendo nada de cofragens, carros de avanço, pré-esforçados, betão armado e essas coisas, eu na verdade nem gosto de engenheiros, salvo raríssimas excepções, eu é mesmo mais outro comprimento de onda, eu tento, eu esforço-me, mas não consigo nem gostar nem achar a mínima piadinha a estas coisas, dêem-me um DSM-V TR, dêem-me treino de competências, POCs, dêem-me coisinhas que façam pensar e esforçar a mente, não estas coisas frias e sem gracinha nenhuma)

 

(e aquela malta a jogar nos portáteis nas aulas?)

publicado por Vita C às 20:14
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16
Dez 10

 

Quando comecei a trabalhar onde estou, aceitei o desafio e nem olhei (muito) para trás. Ao contrário da Ana, nem sempre me apetece apertar-lhe o pescoço ou aguçar a criatividade a desenhar maléficas e divertidas experiências com o meu chefe. Cresci muito, pessoal e profissionalmente, e graças à facilidade que este homem tem de aceitar inovações, apostar nas pessoas e dar crédito às ideias que lhe apresentam.
Só que às vezes canso-me de ter de o chamar ao planeta Terra onde as pessoas não descarregam por tudo e por nada.
E pronto, hoje foi o dia em que o deixei a flutuar em direcção a Saturno, devidamente equipado com oxigénio para duas semanas. Tivesse eu o jeito ou o talento da moça, e isto tinha um boneco todo maquiavélico. Não tenho, por isso fica o murro na mesa e a mensagem subliminar (ah, o prime, o prime das experiências de cognição social).

publicado por Vita C às 20:16
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17
Out 10

Hoje encontrei uma colega de curso. Ah beijinhos, como estás, estás óptima e outros cumprimentos menores. E depois o inevitável "então o que andas a fazer?".
Fiquei a saber que do meu curso houve uns quatro ou cinco (ou poucos mais, que não sabemos de toda a gente) que ficaram e continuaram a trabalhar na área. Que a maior parte nem sequer se inscreveu na Ordem dos Psicólogos porque, apesar de o ser, porque não conseguia comprovar a experiência profissional ou porque nem a conseguiu obter. Essa maioria que anda a pular de emprego em emprego após ter queimado pestanas para rigorosamente nada. N-A-D-A, porque ouvem coisas estranhas nas entrevistas de emprego, como sobrequalificação para reporem livros, entre outros casos. Alguns trabalham a part-time e vão fazendo formações que sabem que não os vão levar a lado nenhum. Outros escolheram carreiras nas quais nunca tinham pensado e que servem apenas para chegar ao fim do mês. Tenho uma amiga que é bancária, ela que sempre adorou números (a ironia extravasa pelas teclas, sabiam?).

Porque temos trinta anos e entretanto já sairam novas fornadas das faculdades, também elas a caminhar para este abismo.
E então lembrei-me que ouvi o nosso bastonário falar na televisão há uns dias a propósito dos mineiros chilenos. E que tenho de enviar para a Ordem uma fotografia actualizada para a Cédula Profissional. Porque apesar de não exercer psicologia vai para alguns tempos largos, é essa a minha profissão, mereço-a pelas pestanas que queimei, pelo mestrado pré-Bolonha que ficou a meio porque a crise é uma m3rda e nos apanhou quando a necessidade de qualificação não foi mais forte do que a necessidade de sobrevivência (Maslow, que no Motivation and Personality nunca falou numa pirâmide, entenderia isto muitíssimo bem). Porque a Ordem deveria avaliar os curricula das faculdades que apresentam o curso, e não apenas os licenciados que delas saem, e porque o próprio bastonário foi meu professor deveria também ele saber que este deveria ser o ponto de partida, e não o de chegada.

Num mail de um grupo de investigação de relações interpessoais que ainda recebo (sim, sou uma masoquista) foi-nos enviada bibliografia. As respostas? Todas do tipo "Professor, estou desempregada, se puder ser útil em alguma coisa...".
E é assim que se voltam as costas ao que verdadeiramente nos realiza, e aceitamos que quando nos perguntam o que fazemos, respondemos ao lado. Eu? Eu sou técnica de higiene e segurança em formação, falta-me só defender o trabalho final. Mas numa vida passada, há uns anos, fui psicóloga. Exerci e dei aulas. E, caramba, até era boa no que fazia. Mas isso foi numa vida passada.

Nesta vida presente, deito-me às 2h40 porque estive a acabar um Plano de Segurança Interno. Porreiro, pá!

publicado por Vita C às 02:17
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05
Set 10

O regresso ao trabalho. O ser a primeira a entrar no escritório e saber que tudo terá de ser gerido como se não me tivesse ausentado.
Quando escolhi deixar a psicologia, senti que estava a abdicar de uma parte de mim. Penso nisso todos (ou quase todos) os dias. Mas o meu trabalho não deixa de me dar inúmeras possibilidades de a viver no terreno. Amanhã será a minha tolerância à frustração, a minha motivação intrínseca e a abertura de espírito que estarão, mais uma vez em jogo.

Este tempo passado fora da capital foram fulcrais. A simpatia das pessoas, o ar puro a brindar os pulmões, os sorrisos tão gentis e genuínos, o aproximar de pessoas com quem há muito não falava, e sobretudo, o abraço de regresso da minha metade. Vale por tudo.

 

Ainda assim, não me apetece.

publicado por Vita C às 21:26
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